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Malo Mori Quam Foedari (Antes a Morte que a Desonra)

Ana.cat
Ana Catarina contemplava aquele pergaminho perdida nos seus pensamentos quando um barulho seco lhe despertou a atenção, era o seu marido que acabara de entrar na camarata, e entendendo o momento que a condessa estava a passar a abraçou, e ela a ele duma forma que só um casal que passara por inúmeras provações e se conhecia tão bem como se o parceiro fosse ele mesmo e vice-versa.
Naquele momento ela não conseguiu pensar em mais nada, esqueceu os perigos que os esperavam em terra e a morte e a fome que lhes poderia bater à porta no futuro próximo, naquele momento pensava unicamente no homem que tinha diante de si, amava-o desde o seu primeiro encontro e agora ali estavam eles, abraçados como se fossem um só ser, enquanto lá fora os tormentos aguardavam ambos.
Ana levou os seus lábios até à face barbuda de Filipe, beijou-a suavemente e murmurou-lhe ao ouvido.


- Temos que nos ir juntar às restantes no convés - Ana colocou o pergaminho do salvo-conduto à vista do marido e completou - estão todos a aguardar isto.

A Monforte pegou na mão de Filipe e guiou-o até ao espaço aberto do convés onde todos a aguardavam para entregar o documento ao marinheiro. Ana apressou-se a fazer a entrega e de seguida deu espaço aos homens do engenho de cordas e roldanas que fazia descer o pequeno bote ao mar. Assim que aquela casca de noz caiu à água e o marinheiro no seu interior começara a remar lentamente em direcção ao Arsenal os viajantes começaram a dispersar-se do convés.
Ana ficou junto à proa a observar os fortes movimentos de braços do pobre marinheiro até o perder de vista.


    ***

Só voltaram a ver o bote quase uma hora depois. O marinheiro assim que recebido na caravela deu a boa nova aos viajantes: tinham autorizado para atracar na barra!
O Capitão ao ouvir isto deu imediatamente ordens para soltarem amarras e as velas, o Lusitano depois de largar passageiros e mercadoria ia entrar na doca seca para reparar os danos sofridos ainda em Alcácer do Sal e que devido à atribulada viagem se tinham agravado.
Ana não se contia em si de tão ansiosa que estava, era uma nova terra, uma nova cultura e pior, uma nova língua...

O Lusitano não demorou muito tempo a atracar, mais tempo demoraram os passageiros a carregarem para fora do navio os bens que mais necessitavam, no interior da caravela deixaram apenas os materiais necessários para a construção do "Arminho".

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Filipesilva


Chegada a tão aguardada hora do desembarque, o momento era de tão grande entusiasmo que nem a avultada quantidade de bagagem da sua filha Joanokax conseguiu perturbar. Foi então com um sorriso nos lábios que Filipe desembarcou d'O Lusitano, ao lado da sua esposa e da sua filha, carregado com mais bagagens do que tinha vontade de contar. Por entre a azáfama que seria de esperar de um imponente arsenal, Filipe vê-se momentaneamente perdido nos seus pensamentos, reflectindo sobre o quão diferente esta cidade era em relação à sua pacata cidade natal de Crato, mas ainda assim não deixou de notar as semelhanças com outras situações em que já se tinha encontrado no passado. Foi com nostalgia que Filipe contemplou a floresta que envolvia Vannes, que tanto lhe recordou a floresta de Crato, a qual cresceu habituado a contemplar pela janela de cada vez que se levantava logo pela madrugada. Mas esse sentimento era atormentado pelos estandartes dos vários exércitos Bretões presentes dentro e fora das muralhas da cidade, que esvoaçavam bem alto ao sabor da brisa marítima. Quando o seu olhar se perdeu com o da Ana, não havia nada que mil palavras pudessem acrescentar já que uma troca de olhares bastava para o casal perceber exactamente o que o outro estava a sentir. As mãos do casal uniram-se de forma instintiva numa demonstração de apoio mútuo, mas não tardou para que o momento solene fosse interrompido com o barulho de algo a cair ao chão. Ao olharem em seu redor alarmados, o casal repara numas malas abandonadas no chão, a poucos metros de onde se encontravam, e numa jovem senhora a correr como quem foge do diabo. Não tardou que percebessem, para sua aflição, que se tratava da sua filha Joanokax. Aterrorizados pelo que poderia estar a acontecer à sua filha, o casal não perdeu tempo a tentar perceber o que sucedia, ao mesmo tempo que as suas mãos se separaram apenas para ir de encontro ao punho das suas respectivas espadas. Mas pouco tardou para que a aflição se transformasse em risos quando o casal viu a filha a entrar de rompante por uma tecelaria local. Tornara-se óbvio para o casal que a paixão da sua filha pelo vestuário, que ditou inclusive a sua escolha profissional, levasse agora a melhor. O casal dirigiu-se então, calmamente e sem conseguir parar de rir, para a tecelaria onde a sua filha se encontrava. Ao espreitarem para o interior da oficina, deliciaram-se a observar a sua jovem filha a remexer por entre os trapos, ora ficando de boca aberta e com os olhos a brilhar, ora criticando duramente a pobre tecelã que não entendia nada do que a Joanokax dizia.

- Esta menina nunca há-de mudar - disse Filipe à Ana, num tom nostálgico misturado com uma vontade imparável de rir. Faz-me lembrar das vezes em que a encontrávamos no nosso quarto a remexer nas tuas coisas.

Mas pouco demorou para que Joanokax acalmasse o seu entusiasmo e a sua curiosidade, saindo então da oficina para se juntar de novo aos pais. Filipe aproveitou então o momento de calma e boa disposição para tomar a palavra.

- Que dizem de irmos procurar uma estalagem para pousarmos as bagagens e termos onde passar a noite confortáveis? Assim estaremos mais à vontade para conhecer o resto da cidade.

Os três apressaram-se então a procurar uma estalagem que satisfizesse as suas necessidades, interrogando-se se a decoração interior das casa bretãs seria tão esplêndida quanto a sua arquitectura exterior.

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Ana.cat
Aquela brisa marítima, o som das ondas a baterem na barra, os guinchos das gaivotas, aquela língua estranha, aquela arquitectura de casas de madeira e adobe completamente diferentes das pequenas casinhas portuguesas... tudo fascinava a condessa, era como se estivesse noutra dimensão "Já deveria ter saído de Portugal há mais tempo!" - pensava para si enquanto admirava tudo em seu redor.

- Que dizem de irmos procurar uma estalagem para pousarmos as bagagens e termos onde passar a noite confortáveis? Assim estaremos mais à vontade para conhecer o resto da cidade.

Ana tentou esquecer o ambiente que a rodeava e centrou-se em Filipe, que lhe fizera uma pergunta.

- Sim, óptima ideia! Eles ainda estão a descarregar a mercadoria - referia-se à tripulação do Lusitano - Mas não nos podemos esquecer deles, a estalagem tem que ter espaço para todos - sorriu.

Os três partiram juntos à descoberta da cidade pelas suas ruas largas a fervilhar de vida e actividade. Não demoraram muito a encontrar algumas estalagens, sendo Vannes a cidade portuária mais importante de todo o Grão-Ducado estalagens para dar abrigo a toda a espécie de marinheiros e viajantes era coisa que não faltava. As primeiras não agradaram muito ao casal, eram mal frequentadas por marinheiros que estando tanto tempo longe de terra procuravam aquelas casas para algum divertimento. Mas lá acabaram por descobrir uma estalagem asseada e com espaço para toda a tripulação, com a guerra muita da clientela deixara de chegar para ir combater na frente ou no mar. Chamava-se "Ty-War Or Atav"* e tinha boas condições e quartos acolhedores, devia ser frequentada por marinheiros graduados e gentes com posses, daí o preço da estadia ser superior em comparação com as restantes casas.

- Gostei desta estalagem, acho que eles também irão gostar... vamos chama-los? O Hiacker é que tem a bolsa... *cof*cof* - disfarçou, forçando uma tossidela...

* Casa "Sempre a Navegar"

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Joanokax


Joanokax saltitava alegremente pelas ruas de Vannes junto dos pais mas aborrece-se ao visitar as 2 primeiras estalagens que encontraram. Os olhares que os marinheiros desdentados e sujos lhe lançavam deixaram-na desconfortável ao ponto de esperar pelos seus pais a porta. Ao visitarem a 3a estalagem, Joanokax impressionada deita-se num sofá à entrada obrigando os pais a escolherem essa para a sua estadia.

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Filipesilva


Agradado com a terceira estalagem que visitaram, e tendo em conta o entusiasmo da Ana e da Joanokax, a decisão era fácil:

- Sim, esta estalagem também me parece bem. Vamos lá então ter com os nossos compatriotas que ainda temos muita coisa para preparar. A viagem ainda agora começou!

Os três voltaram então para junto d'O Lusitano e da sua tripulação para ajudar a descarregar o que faltava e indicar-lhes o caminho para a estalagem.

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Ana.cat
Os três voltaram pouco depois às docas para contar aos restantes portugueses que tinham encontrado uma estalagem acolhedora. Nessa altura os viajantes já tinham arrumado toda a mercadoria essencial para a viajem que se iria iniciar por terra, as carroças estavam cheias e devidamente atreladas aos cavalos de trabalho trazidos de Alcácer. Cada um montou a sua montada também trazida de Portugal e todos juntos começaram a mover a caravana em direcção à estalagem. Ana Catarina seguia à frente a par do marido, Kokkas e Hijacker, Joanokax seguia mais atrás, numa carroça conduzida por um dos criados da Casa que se oferecera para os acompanhar à Bretanha. A condessa transportava o estandarte negro-ouro com as armas da família preso às correias da égua e encostado ao seu ombro.
A caravana despertou alguma atenção nos populares, que embora estivessem habituados às frequentes paradas militares e demonstrações de poder das autoridades bretãs, não deixaram de estranhar aquele estandarte cujas armas lhes eram desconhecidas e os seus portadores, trajados com roupas leves, próprias de climas mais amenos.

O grupo chegou minutos depois à estalagem, e enquanto Hijacker fazia contas com os proprietários da casa, os restantes viajantes trataram de arrumar bens, carroças e cavalos nos seus devidos lugares. Mas o grupo não ficaria em Vannes por muito tempo, a guerra não grassara ainda por aquela agitada cidade bretã, e como não sabiam ainda qual o seu próximo destino decidiram esperar a chegada dessa informação a todo o momento. E por isso reservaram a estalagem por alguns dias.


    ***

A notícia chegou apenas dois dias depois da chegada dos portugueses a Vannes, um arauto do Grão-Duque veio até à estalagem. Trazia consigo uma mensagem do seu senhor para Ana Catarina. Nessa mensagem dava as boas vindas aos intrépidos viajantes e pedia-lhes que se deslocassem até à cidade vizinha de Rieux o quanto antes, pois aguardava-os lá um exército.

Finalmente iriam entrar em acção! Ana não cabia em si de orgulho, junto com Hijacker, seu primo, procuraram junto das autoridades locais um batedor experiente para lhes indicar o caminho, conseguiram arranjar a peso de ouro um veterano da guerra da independência do Grão-Ducado de 1456.
O grupo reuniu mais uma vez os seus pertences e fez-se alegremente à estrada, conduzido pelo batedor bretão, mas com o pensamento nos combates que os avizinhavam. Só Ellinha permaneceu em Rieux, era necessário que ficasse alguém na cidade, devido à presença do Lusitano, à construção da Nave de Guerra da família e também pelo comércio de bens raros que desejavam trazer para Portugal.


    ***

Os viajantes estavam em Rieux há vários dias. Tinham entretanto todos eles sido alistados no exército bretão "Alea Jacta Est" comandado pela General Morvan Rozane. No entanto como ainda não tinham recebido ordem de mobilização o acampamento militar mal era frequentado pelos portugueses, que se hospedaram por várias estalagens e frequentavam as tavernas, confraternizando com os locais, jogando aos famosos "dardos do Robmor" e brindando com chouchen, um hidromel típico da Bretanha, à determinação daquele grupo, à família e às vitórias futuras. O ambiente era alegre e fraternal, pois naqueles locais de lazer foram encontrando alguns familiares distantes, tais como Mimilia de Montfort ou Gwenelle de Montfort-Troxandrie, a proprietária da taverna favorita daqueles portugueses: "A pedra da Lua da Amizade".

Apesar de toda esta alegria a ansiedade tomava conta daquele grupo. Nunca mais haviam recebido noticias da sua mobilização na guerra. Alguns começavam mesmo a perder a motivação, tal era o tempo de espera.


    ***

Só após uma semana e meia desde a sua chegada a Rieux é que receberam notícias do Grão-Duque. Nesta nova carta Elfyn de Montfort pedia aos portugueses que se apresentassem com urgência no acampamento militar exterior à cidade, aí iriam receber novas ordens da General bretã.
Todos se apresentaram e receberam instrução sobre a organização dos exércitos bretões e respectivos acampamentos.
A General chamou ainda Ana à parte e transmitiu-lhe que fora por vontade do Grão-Duque que ela seria nomeada Oficial de Logística do Exército. A par desta nomeação foi colocado a cargo da condessa portuguesa todo o inventário do exército. Caberia a Ana distribuir o armamento, soldos e ração diária aos soldados.

A partida ficou marcada para o dia seguinte. O pressentimento de que os combates estavam próximos fizeram levantar aos poucos a moral das tropas que há muito aguardavam a partida de Rieux.
Mas só depois de várias horas reunida com a General e restantes militares graduados na tenda dos oficiais é que Ana recebeu a informação que o exército iria marchar até ao vizinho Ducado de Anjou, território aliado do Ponent onde não seria expectável encontrarem qualquer tipo de resistência. Mas o caminho até Angers, a capital angevina e primeira cidade da rota, mostrava-se complicado. Ana debruçou-se sobre o mapa e contou várias paragens em território inóspito, onde os soldados não poderiam contar com outra protecção que não as suas próprias armas.

E como planeado, na manhã seguinte começou a marcha do exército...

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Hijacker


O sol raiara à poucos momentos e já se sentia a agitação no acampamento... Toda a gente se preparava para começar a marchar.

Ontem antes de se irem deitar Hijacker tinha ficado a falar com Ana um pouco sobre o percurso e as possíveis emboscadas que estes podiam ser vitimas... O caminho ate uma próxima cidade era longo, e haviam relevos no terreno muito estratégicos para serem emboscados.

Hijacker ia falando com alguns familiares menos experientes do que se podia vir a passar e o que devia ser feito.


A saída de Rieux parece me calma, temos algumas planícies, ninguém arriscaria um ataque em campo acberto, o problema será aqui e aqui. Dizia Hijacker à medida que apontava para um mapa que Ana lhe tinha dado. temos alguns desfiladeiros assim como algumas colinas que podem ser traiçoeiras. O fundamental se houver alguma situação é manterem se calmos e rapidamente assumirem os postos de batalha.

Lembrando alguns livros que já havia lido, e de quando estudara, estratégia avançada Hijacker partilha alguns desses conhecimentos.

Tentem analisar bem o vosso oponente, se for um arqueiro, ou um besteiro, muito comuns em França, tentem não se aglomerar, dispersam se pois será mais difícil para eles acertarem, e utilizem bem o vosso escudo, este pode ser o vosso melhor amigo.

Os familiares iam ouvindo mas a trompeta de marcha estava a ser tocada e isto significava que era finalmente horas de começar a marchar, agora começava as verdadeiras dificuldades e perigos.

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Ana.cat
Todos eles escutavam Hijacker com atenção quando se aperceberam do toque da trombeta a anunciar a reunião das tropas e consequente partida.

Cada militar carregava os seus bens às costas, alguns mais abastados possuíam uma carroça e um condutor contratado só para o efeito.
A composição da caravana estava dividida de forma a que os militares de classes sociais superiores fosse à cabeça, deste modo marcariam eles a velocidade da marcha e sempre que lhes conviesse poderiam fazer uma cavalgada, já os camponeses e outras gentes mais pobres seguiam a pé, atrás com as carroças de armamento, viveres e outros materiais necessários para os acampamentos, mas sempre acompanhados por soldados a cavalo a imporem o ritmo da marcha e a prever eventuais furtos.
Os portugueses seguiam imediatamente atrás dos oficiais bretões e respectiva escolta, todos seguiam a cavalo e por isso de vez em quando poderiam dar-se ao luxo de parar ou circular entre a coluna armada.
Ana Catarina seguia como de costume entre o seu marido, irmão e primo. Iam a conversar sobre os caminhos difíceis que tinham pela frente.


- O tempo está a ameaçar chuvas... - analisou Kokkas de cabeça inclinada para o céu.

Desde o início da caminhada que Ana se apercebera do estado enlameado dos caminhos, resultado de aguaceiros nos dias anteriores.


- E os caminhos estão em lama, olha só até onde se enterram as patas do cavalo do Hijacker. Com as estradas assim será difícil para as carroças avançarem lá atrás.

Eles conversavam com alguma contenção, sempre atentos no caminho, não fossem sofrer alguma emboscada, quando a dado momento ouviram um estranho grunhido que despertou a atenção de todos. Ana rodou a cabeça na direcção do ruído e notou um aglomerado de soldados para lá da estrada em torno de uns montes de terra entre a erva abundante.

- Bara eo où hermineg! Bara eo où hermineg!* - gritavam os soldados bretões em redor de um animal morto que um dos soldados ergueu no ar. Parecia um furão branco e tinha o dorso penetrado por uma seta. Ana nunca tinha visto aquela espécie de furão antes, mas Hij logo disse:

- É de certeza um arminho, é bastante frequente nestas terras verdes, férteis e cheias de coelhos e lebres. Eles devem ter morto o animal por causa da sua preciosa pele que é muito apreciada para fazer roupas e rende um bom dinheiro - acrescentou com alguma tristeza

Ana Catarina sabia o que era um arminho, afinal aquele pequeno e fofo animal era um dos símbolos da sua família e daquele Grão-Ducado, mas nunca tinha visto um ao vivo e por isso não perdeu a oportunidade para o ir ver de perto.
A condessa cavalgou até aos soldados bretões e pediu-lhes para pegar no animal. Era uma fêmea do tamanho de um gato, mas mais comprida e leve, tinha ainda os seus pequenos olhos negros abertos. Ana passou-lhe a mão sobre o pelo branco e imaculado, e isto fê-la lembrar-se mais uma vez do lema da família que era também o lema daqueles animais, "Antes a Morte que a Desonra", antes morrer que ter que sujar a sua pelagem: a sua honra.
Ana devolveu o arminho morto ao seu caçador, mas quando se preparava para subir para a sua égua escutou um guincho abafado mas estridente vindo do interior da toca do animal assassinado minutos antes. Calculou que se tratavam das crias daquela fêmea e por mera curiosidade baixou-se e inseriu o braço dentro da toca. Como seria de esperar, devido à natureza agressiva daqueles animais, Ana foi logo mordida num dedo, mas isso não a deteve de retirar as duas crias de arminho que estavam no interior do buraco. Não deviam ter mais de 2 semanas, pois os seus olhos ainda não estavam totalmente abertos e o seu cumprimento não chegava a um palmo. A condessa decidiu guardar os animais dentro de um tecido e montando a sua égua colocou os pequenos mamíferos em cima da cela. Devido à paragem Ana já quase se encontrava junto à cauda da coluna militar, onde as carroças de bois e cavalos circulavam com bastante dificuldade, mas logo troteou em direcção à cabeça da caravana e minutos depois avistou os seus familiares, entre eles Hijacker. Ana conhecia a paixão do primo por aqueles animais, por isso colocou-se ao lado dele e chamou-o.


- Hij! Vê só o que encontrei lá atrás - e destapou o pano, deixando à vista as duas crias que esperneavam assustadas com os movimentos acima-abaixo da égua baia de Ana.

*É um arminho! É um arminho!

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Hijacker


Hijacker olha para os braços de Ana e ao ver destapar duas lindas crias de Arminho, ainda bem jovens, nem queria acreditar.

Como os apanhas te?. Eram da fêmea que vimos à pouco? Ia inquirindo Hijacker a Ana. Esta limitou se a acenar a cabeça, visto as duas crias estarem completamente assustadas, quer pelo barulho do exercito em movimento quer pelas próprias vozes que se iam ouvindo.

Falando um pouco mais baixo Hijacker questiona Ana. Que faremos com eles? Sem a mãe deles muito dificilmente sobreviveram. Olhando novamente para eles e vendo os seus focinhos brancos os olhos de Hijacker reluzem. Ana não os podemos abandonar, a atitude mais nobre é tomar conta deles até eles serem capazes de tomar conta deles próprios.

Aconchegando os bem no pano Ana diz.
Sabes bem que era esse o eu desejo desde o momento que os apanhei. Mas como os vamos alimentar? Eles ainda não devem conseguir comer carne, ainda são muito jovens.

Bem visto, vai ser complicado alimenta los, e principalmente arranjar alimento para eles durante esta marcha.
Nisto Hijacker deixa se ficar um pouco para trás na coluna militar.

Passado uns momentos volta com uma garrafa na mão.

Bem eu tinha comprado umas garrafas de leite de cabra em Rieux para mais tarde pedir que me fizessem uns queijos especiais da região, mas isto é um caso bem mais importante por isso quando eles acalmarem um pouco tentamos dar lhes algum do leite a ver se eles gostam. Se não vamos ter de pensar em outra coisa rapidamente.

Ambos acenam a cabeça e seguem em marcha olhando as duas crias aconchegadas nos panos.



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Ana.cat
Ana concordou com Hijacker, apesar de o leite de cabra não ser o ideal para aqueles pequenos mamíferos não havia outra alternativa. Ana voltou a tapar o pano onde as crias estavam enroscadas, deu meia volta na sua égua e galopou até às carroças, andou entre elas até descobrir a sua, conduzida por um criado da Casa dos Monforte, entregou-lhe os arminhos e deu-lhe várias recomendações para cuidarem daqueles animais quase como se de humanos se tratassem. De seguida a condessa retornou para junto dos seus familiares.

O resto da marcha fez-se sem grandes sobressaltos, lentamente a coluna militar avançava em direcção a Angers, capital do Ducado de Anjou.
Ao final do dia os soldados chegaram às margens do Loire, um dos maiores e mais estratégicos rios franceses.


- Temos que ter cuidado, ouvi dizerem que por vezes nesta altura do ano forma-se em torno do Loire um denso nevoeiro. Temos que andar mais juntos.

A previsão de Ana confirmou-se quando foi hora de montar o acampamento numa clareira perto do rio. O nevoeiro começava a cair e com o passar do tempo os soldados sentiam dificuldades em caminhar entre as tendas recém montadas. Por vezes não viam as cordas esticadas que as seguravam e tropeçavam, caindo no chão com algum aparato.
Aquele exército não era o maior do Grão-Ducado mas mesmo assim conseguira reunir alguns milhares de soldados* provenientes maioritariamente do sudoeste da Bretanha.
As tendas dos oficiais, as mais espaçosas, foram montadas no centro da clareira onde foi também acesa uma grande fogueira para a guarda da general se reunir na vigia. Junto às tendas mais afastadas do centro do acampamento foram acesas outras fogueiras, mas mais pequenas, e junto a elas colocados soldados-vigias.
Antes de se deitar, Ana passou pelas tendas dos víveres, tinham comida suficiente para mais de uma semana de marcha. Recordou-se das palavras dos outros oficiais sobre a grande capacidade da Bretanha para se mobilizar para uma guerra, por semana conseguiam produzir só para os exércitos o necessário para alimentar todo o condado de Lisboa num dia. A Bretanha era de facto um território bem organizado e bem dirigido, uma máquina de guerra afinada por anos e anos de conflitos com a Coroa de França e uma diplomacia bastante activa.

Após inventariar a comida necessária para distribuir no dia seguinte Ana retornou finalmente à sua tenda, onde descansou para mais um dia de marcha que se avizinhava.


    ***

A trombeta soou por todo o acampamento anunciando o início de mais um dia longo.
Quando Ana saiu da tenda apercebeu-se que o nevoeiro se adensara e não dava sinais de se dissipar. A condessa subiu para a sua égua preocupada, pois se o nevoeiro não melhorasse poderia atrasar em muitas horas a marcha até Angers ou no pior dos casos a coluna podia-se mesmo partir em vários grupos sem contacto entre si e perderem militares pelo caminho.
Antes de partir para o seu local habitual na caravana, a Monforte deu as últimas instruções aos responsáveis pela distribuição da ração diária. A comida tinha que chegar até Thouars, já no Poitou, por isso optaram por alternar alguns alimentos, em vez de serem dados diariamente aos soldados seriam dados apenas de dois em dois dias.
Dadas as últimas ordens a condessa galopou até à sua carroça para ver se os arminhos estavam bem de saúde. Felizmente não tinham sinais de fragilidade, estavam bastante agitados e isso era bom, significava que o seu pequeno corpo tinha aceite o leite que Hijacker lhes arranjara.


    ***

Com o passar das horas o nevoeiro adensou-se mais, ao ponto de a General decidir que se deveriam afastar das terras baixas irrigadas pelo Loire e caminharem por caminhos onde a visibilidade fosse melhor, esta decisão acarretava alguns perigos, pois o rio era o ponto de referência que os orientava e levaria até Angers, uma cidade banhada por ele, e por outro lado, se optassem mesmo por marchar nas terras mais altas veriam-se obrigados a percorrer florestas densas cheias de animais selvagens e bandidos.
A decisão foi tomada com a aprovação de todos os oficiais, ninguém queria correr o risco de perder meia coluna, era preferível enfrentarem ursos ou bandidos na floresta.

A marcha continuou assim entre as florestas e ocasionalmente algumas clareiras acima do Loire e foi precisamente junto a uma enorme clareira que o exército decidiu montar o acampamento para o dia seguinte.
Ana estava bastante cansada da caminhada desse dia, já depois de deixar a sua égua nas cavalariças improvisadas é que se juntou à sua família, em redor de uma fogueira. Ali conversou com os seus familiares sobre a jornada do dia seguinte e a dado momento notou a ausência de Backnang.


- Onde está o Bernardo? Não o vejo desde de manhã.

Todos se olharam entre si, e disseram que não o viam desde uma determinada hora.
Ana ficou apreensiva, afinal uma pessoa não desaparece assim do nada, mesmo num acampamento de milhares de soldados.


- Vou chamar as patrulhas para o ajudarem a encontrar, procurem nas nossas tendas sinais dele!

Ana levantou-se logo de seguida e reuniu-se com o responsável pela segurança do acampamento. Este não lhe deu muitas esperanças pois sabia melhor que ninguém que procurar alguém entre milhares de pessoas e em centenas de tendas não era uma tarefa nada fácil. O homem prometera-lhe que no dia seguinte destacaria batedores para procurarem Backnang, mas que mais não poderia fazer.
Ana resignou-se com essa realidade e voltou para junto da sua família para dar as notícias.


- Não há muito a fazer, amanhã irão enviar batedores para o procurarem. O nevoeiro já deverá estar menos denso e a missão deles ficará facilitada.

*Milhares de soldados = RP falando claro, o exército em si não tinha mais de 3 dezenas de soldados.

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Octocore


Octocore estava a montar sua tenda para passa a noite, ainda com as pernas doloridas do longo dia sobre o cavalo ele via dificuldade para se abaixa e prende os ganchos apropriadamente, logo que ver Ana.cat vindo em sua direção ao longe o Baronete larga um dos ganchos e vai ver o que se passa.

- Octo por acaso viu o Bernado ?

O baronete coloca uma das mãos nas testa e depois de esfrega-la um pouco logo responde.

- Não sei, não vejo ninguém da família desde que o nevoeiro surgiu , só não me perdi pois estava a segui uma das carroças de suprimentos.

Octocore olha a cara de aflição de Ana.cat e percebe que talvez o Bernado possa te se perdido no nevoeiro, logo se oferece para ajudar Ana a procura por ele.

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Ana.cat
A procura efectuada no acampamento pela família não surtiu efeitos, ninguém encontrara Bernardo e a apreensão tomava conta de todos.

- Não podemos ficar a noite inteira à procura dele... - suspirou Ana - Temos que nos ir deitar, amanhã a caminhada é mais curta mas não é por isso que deixa de ser dura.

Todos concordaram, no fundo suspeitavam que por mais que procurassem, Backnang não estava no acampamento senão já teria aparecido. O mais provável é que ele se tivesse perdido no denso nevoeiro, como tantos outros.

No dia seguinte Ana acordou a tempo de ver os batedores partirem em busca do Monforte desaparecido, desejou boa sorte aos cavaleiros e saltou para cima da sua égua, mais um dia de intensa caminhada os esperava, o destino era Angers, não muito longe dali.

A coluna militar avançou lentamente até às proximidades da capital de Anjou, em todas as aldeias por onde passaram o exército era recebido em festa pelos populares, que se juntavam em multidões a saudar os soldados que chegavam. Mas nem só festejos se viam, Ana notou que ali a pobreza era severa para com aquelas gentes. Inúmeros mendigos e vagabundos deambulavam entre a multidão a pedir comida.


- Se aqui, nestas pequenas aldeias onde as pessoas apesar de tudo ainda conseguem cultivar a terra e alimentar-se dos seus frutos passam fome, o que dirá das gentes do burgo? - disse para alguém que estava ao seu lado, não sabia bem quem era, afinal aquelas palavras eram mais um pensamento alto do que uma conversa.

Ao final da tarde o exército avistou finalmente as grossas muralhas de Angers, mal transpuseram as suas portas foram confrontados com um cenário de morte. Homens e mulheres em farrapos, muitas delas com crianças pequenas ao colo, corriam atrás dos soldados a implorar por uma côdea de pão. A pestilência e o fétido cheiro da morte inundavam as narinas dos soldados, pelas esquinas mais escuras viam-se pequenos montes de cadáveres empilhados em carroças para serem transportados para os cemitérios no exterior da cidade. Apesar de tudo isto, os soldados tinham ordens para continuarem o seu caminho, não havia tempo nem meios para fazer caridade.

O exército acampou nas guarnições militares e praças da cidade. Quando Ana inspeccionava a transferência dos víveres dos militares para uns armazéns completamente vazios, uma mulher com as roupas em trapos, apesar de serem roupas que em tempos idos tinham exaltado algum luxo, aproximou-se de si e apresentou-se. Era uma representante da maire* de Angers e vinha solicitar alimentos para a cidade.
Durante largos minutos Ana esteve diante da responsável a explicar-lhe que não poderia desviar os alimentos do exército sem mais nem menos. Mas a mulher era inflexível, insistia que uma vez que a cidade tinha acolhido o exército este deveria retribuir, doando à população de Angers alguma comida, mesmo que pouca.
A dada altura Ana desistiu de argumentar com a funcionária angevina e conduziu-a até à sua carroça, arrumada junto aos estábulos do complexo militar de Angers, e numa tentativa desesperada de ver a mulher pelas costas entregou-lhe toda a comida que tinha adquirido em Rieux para aquela jornada. A funcionária contentou-se com a doação e mandou que transferissem aqueles bens para uma outra carroça, propriedade da cidade. Ao ver a carroça e a mulher desaparecerem da sua vista Ana suspirou de alívio. Nunca imaginara estar perante tal dilema: entre salvaguardar os mantimentos dos seus militares ou ajudar uma população inteira de esfomeados e vagabundos que necessitavam de ajuda urgente. Preferiu sacrificar-se a si...


*maire = prefeito

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Hijacker


A cidade de Angers tranparecia um verdadeiro caos de guerra, era impressionante, o masacre que ali se tinha passado.

Hijacker não via um cenário tão mau desde que tinha deixado a Inglaterra à uns meses a trás quando eles sufreram cheias e pestes que fizeram até fechar condados e cidades inteiras.

Os militáres estavam a montar acampamento, mas por sua vontade, Hijacker continuava a marchar noite fora. Ficar nesta cidade dáva lhe força para quando tivesse de combater, saber que estaria a ajudar contra a tirania do Dominio real, mas ao mesmo tempo um era um sentimento de tristeza, saber que só atravez de guerra se podia resolver os problemas, causando a tanta gente pobreza, tristeza e sofrimento.

Enconstando se dentro de uma tenda Hijacker tenta adormecer para não ter de ver aquele terror, nem ouvir os gemidos dos muribundos que se iam arrastando pela cidade.

Pensando na sua Tery, Hijacker pede a Jah que a noite passe rápido.

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Ana.cat
* coaaak * coaaak *

Os guinchos dos corvos que sobrevoavam a praça-de-armas da cidade acordaram Ana Catarina de súbito. Aquele som perturbador traziam-lhe à memória as imagens de morte e miséria do dia anterior, a condessa tentou em vão afastar aquelas ideias da cabeça e por isso decidiu levantar-se e iniciar os seus preparativos para a viagem até Saumur, desta forma aliviaria os seus pensamentos de tão macabros pensamentos.
Dirigiu-se ao estábulo onde fora deixada a sua carroça e colocada a sua montada, lá dentro, apercebendo-se que a manjedoura da égua já estava vazia, desatou meio fardo de feno e colocou-o à disposição do animal, enquanto ela se saciava Ana foi ver como estavam os dois arminhos. As crias dormiam profundamente aconchegadas uma na outra enroscadas num pano quente, dentro da carroça. Ana passou-lhes a mão pelo macio pelo de ambas para ver se estavam gordas, mas elas estremeceram e ameaçaram acordar levando a que Ana retirasse a sua mão repentinamente.
Enquanto a égua se alimentava a Monforte começou um trabalho que raramente fazia, era antes delegado a algum criado, tratava-se de aparelhar a égua com a cela e todas aquelas correias. Quando terminava de colocar o freio ouviu o som da corneta matinal a anunciar o fim do descanso dos soldados, tendo já a sua égua aparelhada a Condessa montou-a e tomou a sua posição na coluna que se juntava na praça para a partida
.

    ***

A caminhada foi feita com bastante calma e contenção, os militares estavam com poucas falas, talvez ainda estivessem a digerir as imagens trágicas de Angers e a temer pelo que os aguardava. O que é certo é que apesar de tudo, ao fim do dia o exército bretão chegou às portas de Saumur. Era uma cidade quase em ruínas, fora o centro dos combates no inicio da guerra, e isso deixara profundas marcas.
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Octocore


Logo ao chega em Saumur podia se ver vários edifícios destruídos e outros abandonados, realmente deveria ter acontecido varias batalhas naquela cidade para deixa-la naquele estado de total destruição. Logo se via vários corpos espalhados e tantos outros amontoados esperando para serem enterrados em suas covas onde finalmente encontraram o descanso eterno. Conformem ia adentrando cada vez mais a cidade podia ser ver mais destruição e miséria.

-Meu Jah, pode haver maior destraça que a guerra ?

Octocore logo sussurra essas palavras em voz baixa, mais como um pensamento que vinha do Baronete que nunca avia visto a guerra antes.

No entanto apesar de tudo o Exercito continuava marchando , sempre avançando nunca parava para olhar para trás sempre seguindo em frente , afinal esse era o dever daqueles homens que estavam ali para tentar por um fim a esse caos.

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